LIVRO: CARTA DE AMOR À AMÉRICA (YURI BEZMENOV)(CAPÍTULO 3)
(Apesar dessa tradução ser MINHA, dono deste blog, ela está aberta ao público para TODOS os fins. Não adianta ser rico em um país onde não há nada nas prateleiras, não adianta vencer onde a humanidade inteira perde. Dar os créditos ao citar os textos, no entanto, não deixará ninguém mais pobre e ajudará a divulgar a iniciativa. Obrigado!)
_______
CAPÍTULO 3 - DESMORALIZAÇÃO (INTRODUÇÃO)
Este processo tem muitos nomes: guerra psicológica, agressão ideológica, propaganda bélica, etc. O KGB normalmente refere-se a ele como “medidas ativas”. Desde a minha deserção da embaixada da URSS, em 1970, venho tentando desesperadamente explicar aos meios de comunicação ocidentais, aos políticos, à “comunidade de inteligência” e aos seus “acadêmicos sovietólogos” - que as medidas ativas são mais importantes e perigosas do que a espionagem clássica (no estilo James Bond).
Finalmente, em 1983, no seu novo livro “KGB Today”, John Barron descreveu com precisão e excelência o processo de desmoralização, baseando um pouco da sua análise em dados fornecidos por um outro desertor do KGB, o oficial Stanislav Levchenko - aliás, meu antigo colega de escola do Instituto de Estudos Orientais, que foi colocado mais tarde em Tóquio, no Japão, sob o disfarce de correspondente da revista “New Time”.
Stanislav Levchenko foi bem sucedido onde eu falhei: ele trouxe as medidas ativas para o centro das atenções do público americano. O objetivo deste processo é o de mudar a sua percepção da realidade de tal forma que, mesmo que haja uma verdadeira abundância de informações e provas sobre o perigo do comunismo, não seja mais possível chegar a conclusões sensatas em favor seus próprios interesses e dos interesses de sua nação.
John Barron intitulou ameaçadoramente um capítulo do seu livro, dedicado à análise das medidas ativas, de “A Realidade Invertida”. Título excelente! Isso é exatamente o que os meus gurus de subversão da KGB na agência de notícias “Novosti” me ensinaram. Uma das principais táticas neste processo é desenvolver, estabelecer e impor consistentemente uma série de “padrões duplos”: um para a URSS, outro para os EUA.
Analistas ocidentais já apontaram diversas táticas de “medidas ativas”. Algumas delas eram exatamente as que eu estava treinado para usar em meu trabalho com delegações estrangeiras em Moscou e na embaixada da URSS em Nova Deli: propaganda aberta e velada; uso de “agentes de influência”, falsos “Fóruns Internacionais” criados pela Novosti/KGB para criar uma atmosfera de legitimidade e respeitabilidade às operações soviéticas; provocar e manipular manifestações de massa e assembleias; espalhar boatos e “informações confiáveis de círculos próximos ao Politburo”; comunicados forjados à imprensa do Serviço de Informação dos EUA; semear histórias falsas na mídia local; criar centenas de jornais tabloides subsidiados pela embaixada da URSS através de organizações de fachada e falsas empresas de “publicidade” com a finalidade de financiar “legalmente” grupos de subversivos e radicais; etc. Outras táticas, como a sabotagem e o assassinato de caráter de indianos “teimosos” que estejam resistindo à subversão soviética; terrorismo e até mesmo assassinatos ocasionais de “reacionários e contrarrevolucionários” para causar o efeito psicológico de “paralisar pelo medo” - também foram técnicas utilizadas pelos meus colegas de outros departamentos do KGB na embaixada da URSS.
Eu estou menos familiarizado com esses aspectos do processo de subversão. O meu papel como homem de relações “legítimas”, manifestamente público e um socializador “carismático” era dirigido pelo KGB, principalmente na fase inicial de subversão. Depois de um certo período de ajuda e de “cultivo” de estrangeiros, eu tinha que prestar contas ao meu supervisor do KGB com a minha “avaliação psicológica” do indivíduo-alvo (ou grupo-alvo) e passar meu relatório aos “profissionais” para um maior “processamento” e recrutamento. No entanto, eu consegui reconstruir com precisão o quadro geral do processo e, ao contrário dos "sovietólogos" ocidentais, chegar a uma descrição mais sistemática e lógica da subversão.
O que lhes ofereço agora é um gráfico tão simples quanto uma tabela de multiplicação e tão complexo quanto cálculo. Essa é A PRIMEIRA VEZ em que esse gráfico é publicado em sua totalidade.
Vamos começar com a primeira fase de DESMORALIZAÇÃO. Demora cerca de 15 a 20 anos para desmoralizar uma nação. Porque tantos (ou tão poucos)? Simples: este é o número mínimo de anos necessários para “educar” UMA GERAÇÃO de estudantes num país-alvo (a América, por exemplo) e expô-la à ideologia do subversor. É imperativo que qualquer desafio e contrapeso suficientes, emergidos dos valores morais básicos e ideologia desse país, sejam eliminados. Na ausência de QUALQUER ideologia nacional coesa e consistente, a tarefa do subversor torna-se ainda mais fácil. Nos EUA, como todos sabemos, há uma MULTIPLICIDADE de ideias e de ideologias, hoje, sem a devida ênfase na ideologia básica e principal americana da república original e do sistema de livre mercado. Não é nem mesmo considerado “intelectual” ou moderno nos dias de hoje subscrever exclusivamente esse conjunto de ideias “fora de moda”.
Para ser bem-sucedido, o processo de subversão, na fase de DESMORALIZAÇÃO, deve acontecer sempre e apenas numa via de MÃO DUPLA, o que significa que o país-alvo DEVE ser feito de DESTINATÁRIO - ativo ou passivo - das IDEIAS do subversor. A democracia é, por definição, um DESTINATÁRIO de uma multiplicidade de ideologias e valores; quer sejam bons, quer sejam maus. Infelizmente, “más” ideias muitas vezes só são provadas e reveladas como más somente após um longo período de tempo, durante o qual muitos já as absorveram e permitiram a sugerida mudança em suas atitudes e no comportamento do país inteiro. Antigos governantes japoneses entendiam muito bem este princípio quando praticamente ISOLARAM o seu país de QUALQUER influência externa - boa, má ou neutra. O Japão imperial foi “preservado” em seu próprio conjunto de valores históricos em um período suficientemente longo para formar uma nação madura e moralmente estável, capaz de fazer a transição para uma civilização inteiramente nova, tecnológica, com pouquíssimo prejuízo para a fibra nacional. Mais do que isso: o japonês, embora com relutância, abriu-se aos valores ocidentais e superou o Ocidente no período histórico mais curto possível, desde a Segunda Guerra Mundial, tornando-se uma das maiores potências industrializadas e tecnologicamente avançadas do mundo. Sem tal “maturidade” uma nação pode ser mal formada mesmo depois de estar sob a influência estrangeira mais favorável, o que é claramente demonstrado por um bom número de nações do Terceiro Mundo “descolonizadas”, que abraçaram prematuramente a democracia parlamentar.
Mas se e quando uma influência externa é propositalmente mal-intencionada, uma nação imatura - ou uma nação com uma ideologia indígena negligenciada (a América) - torna-se automaticamente um destinatário de SUBVERSÃO já na sua fase inicial de DESMORALIZAÇÃO.
A desmoralização bem-sucedida é um processo IRREVOGÁVEL, pelo menos por mais uma geração. Por quê? Usemos um exemplo: a geração semialfabetizada e instável americana da “louca” década de 1960 está agora aproximando-se dos 40 anos de idade. Essas pessoas, que estavam demasiadamente preocupadas em protestar contra a guerra do Vietnã, em participar do cenário musical de rock/drogas, em participar do “amor livre”, etc., para parar para estudarem e se prepararem para assumir as suas responsabilidades civis, agora estão em posições de poder e de liderança no governo, empresas, mídia, vida social, entretenimento (Hollywood), Forças Armadas e serviços de inteligência. Não são todos? OK. Mas MUITOS são. E vocês estão PRESOS com eles, até que eles se aposentem ou renunciem. Vocês não podem demiti-los, é contra os regulamentos sindicais. Vocês não podem, ao contrário da URSS, enviá-los para o Alasca, depois de declara-los “inimigos do povo”. Vocês não podem sequer criticá-los aberta e eficazmente - eles invadiram a comunicação social e o controle da opinião pública. A menos que queiram ser chamados de “macartistas”, vocês não podem mudar as atitudes e os costumes deles. Nessa idade, as pessoas normalmente estão “bem estabelecidas” em seus caminhos como indivíduos. VOCÊS ESTÃO PRESOS a eles. ELES mudam as tuas atitudes e opiniões, dirigem as questões nacionais e internacionais, e estão tomando decisões por VOCÊS, quer vocês gostem ou não.
Para mudar os rumos do futuro da América e retornar aos seus valores fundamentais, que provaram-se eficazes e eficientes por quase 200 anos de liberdade e abundância sem precedentes na história humana, vocês têm que educar uma NOVA geração de americanos, desta vez no espírito do patriotismo e do CAPITALISMO. Tudo bem, vocês não querem “retornar”. Preferem algo novo, progressista E construtivo, para tornar a América, mais uma vez, respeitada e amada em todo o mundo, para que os receptores da ajuda dos EUA não gritem mais “ianque, vá embora”? Independente do que escolherem, mesmo que vocês comecem a educação de uma NOVA geração de americanos NESTE MINUTO, levará de 15 a 20 anos para levar esta nova geração a posições de poder e autoridade.
Vocês podem reduzir esse período de tempo, se A NAÇÃO inteira puder fazer um esforço enorme num clima de unidade e CONSENSO dominante. Vai ser preciso um milagre (ou outra catástrofe nacional, como uma nova guerra mundial - que Deus nos livre) para fazer os americanos abraçarem UMA ideologia americana e agirem em UMA só direção, depois de décadas de desunião, disputas, antagonismos partidários e autocondenação.
Portanto, vamos ser realistas: a DESMORALIZAÇÃO, seja autoinfligida ou importada, geralmente é um processo IRREVERSÍVEL - por uma geração, pelo menos.

Comentários
Postar um comentário